Reputação se constrói em anos e pode se perder em minutos.
- Juliana Starosky

- há 17 horas
- 5 min de leitura
Na carreira, competência abre portas. Mas é a reputação que sustenta permanência, confiança e valor percebido ao longo do tempo.
Por Priscilla Katayama
Há temas da carreira que parecem invisíveis enquanto tudo vai bem. A reputação profissional é um deles, principalmente para quem atua no #MercadoFinanceiro.

Quase todo profissional fala de desempenho, metas, formação, entregas e resultados. Tudo isso importa, claro. Mas existe um ativo menos tangível e muitas vezes mais decisivo que vai sendo formado silenciosamente ao longo dos anos: a forma como as pessoas passam a associar o seu nome a uma experiência, a um padrão de conduta e a uma maneira de estar no trabalho.
Reputação não nasce de uma apresentação impecável nem de uma única grande entrega. Ela se consolida na repetição. No modo como alguém reage sob pressão.
Na coerência entre discurso e comportamento. Na forma como trata pares, lideranças, equipes e parceiros quando não há palco, aplauso nem conveniência. É por isso que ela leva tanto tempo para ser construída. E é por isso também que pode ser danificada com uma velocidade desproporcional ao esforço investido para criá-la.
Esse não é um tema subjetivo demais para o mercado. Ao contrário. O mercado está cada vez mais sensível à confiança, à integridade e à coerência. A pesquisa global da PwC mostra que:
93% dos executivos entendem que construir e manter confiança melhora o resultado do negócio. Ao mesmo tempo, a própria pesquisa revela um desalinhamento importante de percepção: 86% dos executivos acreditam que o nível de confiança dos empregados é alto, mas 67% dos empregados dizem confiar fortemente no empregador. Existe um gap real entre como líderes imaginam ser percebidos e como de fato são percebidos.
Esse ponto é relevante porque reputação não é autodeclaração. Não é o que o profissional diz sobre si. É o que o ambiente conclui a partir do que observa, experimenta e comenta. Muitas carreiras não são enfraquecidas por falta de capacidade técnica, mas por ruídos acumulados de comportamento, comunicação, ego, descuido relacional ou desalinhamento ético.
Quando a confiança se rompe, o problema raramente fica restrito à imagem. Ele entra na dimensão do risco. Uma pesquisa global da WTW com 500 executivos seniores mostra que a reputação vem sendo tratada como risco operacional e financeiro, e não apenas como tema de branding. O levantamento também indica que 86% das empresas já têm processos formais para avaliar e gerenciar risco reputacional.
Isso ajuda a entender por que o assunto deixou de ser periférico. Em ambientes mais expostos, mais digitais, mais polarizados e mais velozes, reputação não depende apenas do que se faz bem. Ela também depende do que se evita deteriorar. Comentários imprudentes, posturas inadequadas, perda de compostura em reuniões, desalinhamento entre fala pública e prática privada, falta de respeito em interações cotidianas e pequenas concessões éticas têm hoje um potencial de reverberação muito maior do que no passado.
A EY, em seu Global Integrity Report 2024, mostra que:
42% dos empregados se enquadram em grupos que aceitariam agir sem integridade em determinadas condições. Entre líderes, o número também chama atenção: 67% dos membros de conselho admitem que poderiam agir de forma antiética em uma ou mais situações para favorecer progressão de carreira ou remuneração. O mesmo relatório aponta que 45% dos incidentes de integridade estão ligados à falta de exemplo da liderança ou à pressão por resultados. Esse recorte mostra que reputação não se perde apenas em grandes eventos. Muitas vezes ela começa a ser corroída em microescolhas normalizadas. Uma omissão. Um comportamento recorrente que vai se tornando padrão. Um desalinhamento que passa despercebido no curto prazo, mas que se acumula ao longo do tempo até virar percepção consolidada.
E aqui está um ponto que o mercado raramente verbaliza de forma direta: existem percepções que, uma vez formadas, são extremamente difíceis de reverter. Elas passam a circular antes mesmo da pessoa entrar em uma sala. E isso muda completamente o ponto de partida de qualquer conversa, oportunidade ou decisão.
Ao mesmo tempo, a construção de reputação não deve ser lida apenas como prevenção de risco. Ela também é um investimento em valor percebido, credibilidade e posicionamento profissional. O World Economic Forum mostra que o mercado de trabalho atravessa uma transformação acelerada, impulsionada por tecnologia, mudanças econômicas e novas exigências de habilidades. Mais de 1.000 empregadores, representando mais de 14 milhões de trabalhadores, participaram do levantamento de 2025. Nesse contexto, confiança, adaptabilidade e qualidade relacional ganham peso crescente na leitura de valor profissional.
A Deloitte reforça esse movimento ao mostrar que desenvolvimento, mentoria, equilíbrio e propósito passaram a influenciar fortemente decisões de carreira, especialmente entre profissionais mais jovens. Isso amplia a responsabilidade de quem lidera: reputação também se constrói na forma como alguém desenvolve pessoas, compartilha crédito e sustenta relações maduras ao longo do tempo.
Talvez a melhor forma de sintetizar tudo isso seja simples. Reputação não é sobre visibilidade, mas sobre consistência.
Ela se forma quando competência encontra coerência. Quando entrega encontra caráter. Quando visibilidade encontra responsabilidade. E quando o profissional entende que carreira não é feita apenas do que ele produz, mas do tipo de confiança que deixa em cada ambiente por onde passa.
Leva tempo, porque depende de repetição.
E exige cuidado, porque basta perder discernimento por tempo suficiente para comprometer aquilo que levou anos para ser construído.
No fim, reputação é isso: o que o seu nome provoca antes mesmo de você começar a falar.
Sobre a autora
Priscilla Katayama é executiva do mercado financeiro com mais de 25 anos de experiência em Corporate Banking, Investment Banking, Meios de Pagamento e Desenvolvimento de Negócios. Atualmente atua no BV, liderando iniciativas estratégicas voltadas ao relacionamento com grandes empresas, estruturação de soluções financeiras e expansão de negócios no segmento corporativo.
Ao longo de sua carreira, construiu uma trajetória sólida em instituições como Banco do Brasil e Santander, onde liderou portfólios bilionários, desenvolvimento de produtos financeiros e negociações estratégicas com grandes grupos empresariais. Sua atuação inclui participação em comitês executivos no Brasil e na Espanha, gestão de equipes multidisciplinares e condução de operações estruturadas envolvendo crédito, mercado de capitais e meios de pagamento.
Sua experiência combina visão estratégica de negócios, gestão de risco e profundo entendimento da dinâmica de relacionamento no mercado financeiro, elementos essenciais para a construção de parcerias de longo prazo com clientes corporativos e para a tomada de decisões em ambientes de alta complexidade.
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Referências
PwC Trust in US Business Survey 2024 https://www.pwc.com/us/en/library/trust-in-business-survey.html
WTW Global Reputational Risk Readiness Survey 2024/25 https://www.wtwco.com/en-id/insights/2025/05/global-reputational-risk-readiness-survey-2024-25
EY Global Integrity Report 2024 https://www.ey.com/en_gl/insights/forensic-integrity-services/global-integrity-report
World Economic Forum Future of Jobs Report 2025 https://www.weforum.org/publications/the-future-of-jobs-report-2025/
Deloitte Gen Z and Millennial Survey 2025 https://www.deloitte.com/global/en/issues/work/genz-millennial-survey.html



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