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O mercado ainda quer executivos experientes. Mas em quais condições?

há 1 dia
4 min de leitura

A redução de cargos de liderança, a disputa por posições C-Level e as mudanças na remuneração revelam uma contradição que tenho observado em conversas com executivos no Brasil e em outros países.


Por Juliana Starosky, Psicóloga da Carreira | Criadora da Metodologia STAR para Marca Executiva, Reputação e Transição de C-Levels e Lideranças | Fundadora da Starosky Consultoria | Headhunter da Carreira®


Tenho conversado com executivos no Brasil e também com profissionais que vivem e trabalham em outros países. E algumas situações têm se repetido nessas conversas.

Profissionais com 20, 25, 30 anos de experiência, que ocuparam posições de diretoria e C-Level, encontrando dificuldades para conseguir uma oportunidade compatível com o que já fizeram.



Há muita gente qualificada disputando as mesmas posições. E tenho observado empresas reduzindo níveis hierárquicos, acumulando responsabilidades e, em alguns casos, oferecendo remunerações inferiores às que esses profissionais recebiam anos atrás.


Os números brasileiros ajudam a compreender parte desse movimento.

Segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, em fevereiro de 2026, com base no Caged, o Brasil eliminou 322 mil postos de gerência e diretoria entre 2020 e 2025. Somente no último ano, foram 112,3 mil.
Nos Estados Unidos, um estudo da Spencer Stuart mostra que, em 2025, apenas 40% dos novos CEOs das empresas do S&P 1500 vieram de fora das empresas. Os outros 60% foram promovidos internamente.

São dados diferentes, mas ajudam a entender por que ter experiência para ocupar uma posição não significa necessariamente encontrar uma oportunidade disponível.

E existe a questão salarial, que também me preocupa.


Tenho conversado com executivos que estão considerando propostas bem abaixo da última remuneração. Alguns aceitam porque precisam trabalhar, outros porque não querem permanecer mais tempo fora do mercado.


Isso não significa que os salários estejam caindo em todos os países ou setores. Mas são situações que tenho encontrado nas conversas sobre carreira, inclusive com profissionais que vivem fora do Brasil.


Depois de tantos anos trabalhando com executivos e conhecendo os dois lados da mesa de contratação, uma coisa continua me chamando a atenção: o quanto a dificuldade de encontrar trabalho pode afetar a maneira como uma pessoa passa a enxergar a própria competência.


Um executivo acostumado a tomar decisões, responder por resultados e liderar operações inteiras pode começar a duvidar de si depois de meses participando de processos seletivos sem uma proposta.


E, muitas vezes, estamos falando de profissionais muito preparados.


Eu acredito que precisamos olhar com mais cuidado para o que está acontecendo com as estruturas das empresas e com as exigências feitas a quem procura trabalho.


É legítimo que uma organização reveja custos, cargos e remunerações. Mas também precisamos questionar quando se espera experiência de C-Level, responsabilidades de diretoria e disponibilidade para assumir riscos, oferecendo condições que não correspondem ao que está sendo exigido.

Também não podemos transformar toda dificuldade de contratação em deficiência do candidato.

Uma carreira de 25 anos não perde seu valor porque o mercado ficou mais restrito. Mas o profissional precisa compreender as condições atuais para decidir o que está disposto a negociar, inclusive em relação ao cargo e à remuneração.

E quem está contratando precisa reconhecer a diferença entre buscar um executivo experiente e querer contratar toda essa experiência por um custo menor.

Aqui na Starosky Consultoria, converso com C-Levels extremamente qualificados que passaram anos liderando empresas, entregando resultados e que hoje levam meses, às vezes anos, para encontrar uma nova posição. Alguns, pela remuneração que tinham, já não encontram oportunidades compatíveis.


E tenho observado essa dificuldade também nas conversas com executivos de outros países.


Depois de mais de 20 anos acompanhando o mercado de trabalho, isso me preocupa.

Vejo profissionais que, mesmo com toda a experiência acumulada, precisam aceitar salários muito inferiores aos que recebiam. Outros acabam empreendendo por necessidade, abrindo consultorias, oferecendo produtos e serviços e, em alguns casos, concorrendo com empresas que antes os empregavam.


Mas empreender não é simples. Conhecer profundamente um setor não significa saber vender. Construir uma marca, conquistar clientes e sustentar um negócio leva anos.


E existe uma consequência econômica que me preocupa, quando empresas reduzem estruturas e pressionam remunerações, profissionais e famílias ajustam seu padrão de consumo. Gastam menos, adiam decisões e deixam de contratar produtos e serviços. Essa redução de demanda também chega às empresas, inclusive àquelas que estão tentando vender seus produtos e serviços.


Conheço os dois lados dessa mesa e sei que muitas empresas enfrentam dificuldades reais. Mas questiono decisões que melhoram resultados no curto prazo sem considerar seus efeitos sobre o mercado.

Uma empresa pode economizar reduzindo salários e posições. Mas o que acontece quando milhares fazem isso ao mesmo tempo? Como essa economia vai girar?

Eu acredito que estamos olhando muito para quanto custa manter profissionais experientes e pouco para as consequências de reduzir seu espaço, sua renda e seu poder de compra.


Fica essa reflexão para todos vocês!


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