A IA está enfraquecendo o pensamento crítico da liderança?
- Juliana Starosky

- 16 de jun.
- 8 min de leitura
Um alerta da neurociência, da vida real e do mundo do trabalho.
Por Juliana Starosky | ▪︎ Ajudo C-Levels e Lideranças a fortalecer posicionamento, Marca Executiva e Reputação com ciência ▪︎ Metodologia STAR🌟 ▪︎ Mentora de Carreira Executiva ▪︎ Fundadora da Starosky Consultoria ▪ Headhunter da Carreira®
Olá líderes,
Estes dias, conversando com meu grupo de clientes, surgiu uma reflexão e a Thayse Braga falou – “Juliana, isso é muito interessante – deveria escrever isso no LinkedIn e aqui estou”. Falávamos sobre a nossa geração, aquela que brincou na rua, pesquisou na Barsa, esperou a música tocar no rádio, aguardou o desenho passar na TV e precisou aprender, desde cedo, que nem tudo vinha pronto, rápido ou sob demanda. Hoje vivemos o mundo “dopamina” – precisamos estar felizes e sem frustrações o tempo todo.

Eu nasci em 1979 e tive esse privilégio. Cresci em um tempo em que esperar fazia parte da vida. Resolver problemas exigia tentativa, erro, conversa, presença, criatividade e alguma dose de frustração. A internet era discada e você precisava esperar o melhor horário para não gastar muito com a conta de telefone. Você escrevia cartas, hoje você envia WhatsApp ou SMS... tudo muito automático. Não estou romantizando o passado, porque toda época tem suas dores e contradições. Mas havia algo naquele ritmo mais concreto, mais vivido, que ajudava a formar repertório, paciência, senso de realidade e capacidade de lidar com o não imediato.

Hoje, quando observo a velocidade com que consumimos informação, reagimos aos acontecimentos e tomamos decisões, uma pergunta me parece cada vez mais importante:
Estamos ficando mais inteligentes ou apenas mais rápidos? Estamos ampliando nossa capacidade de pensar ou apenas nos acostumando a receber respostas prontas?
Essa pergunta não vale apenas para os jovens. Ela vale para pais, educadores, profissionais, executivos e líderes que precisam decidir em ambientes cada vez mais complexos, pressionados e ambíguos. E é aqui que a conversa sobre Inteligência Artificial precisa sair do encantamento técnico e entrar em um debate mais maduro sobre cognição, discernimento e responsabilidade. Não podemos apenas falar da nova geração a minha também está perdendo capacidade cognitiva pela falta do uso do seu cérebro – pense, quando ele não é usado, ele perde sua função macro.
Precisamos admitir, a IA é uma ferramenta extraordinária. Ela organiza informações, acelera processos, amplia possibilidades, ajuda na escrita, na análise, na pesquisa, na criação de ideias e na tomada de decisão. Eu mesma uso e acredito profundamente no potencial dessa tecnologia. O ponto, portanto, não é demonizar a IA. O ponto é entender como estamos usando a IA (várias aliás, porque nenhuma é 100% perfeita) e que tipo de comportamento mental estamos reforçando quando transferimos para ela etapas importantes do nosso raciocínio. Como pesquiso muito sobre assuntos que tenho interesse, vejo vários erros que ela alucina e muito. Seu objetivo é trazer a “informação” – entregar. Mas, quem está atrás precisa ter o senso crítico e a experiência para fazer a curadoria e entender se o que ela trás faz sentido, se tem algum viés inconsciente ou se realmente ela atendeu as expectativas.
Você já parou para pensar que: existe uma diferença enorme entre usar a tecnologia para pensar melhor e usá-la para pensar menos.
Na neurociência, há um conceito chamado cognitive offloading, ou terceirização cognitiva. Ele descreve o movimento de transferirmos parte do esforço mental para ferramentas externas. Isso não começou com a IA. Uma agenda, uma calculadora, um mapa, um GPS ou um bloco de notas já cumprem esse papel há muito tempo. Essas ferramentas aliviam o cérebro de algumas tarefas e, quando bem usadas, nos ajudam a direcionar energia para o que realmente exige reflexão. Pense, a longevidade não está apenas em ter um corpo saudável e boa alimentação, também está em cuidar da sua mente e fazer tarefas simples é malhar o seu cérebro para que ele não adoeça e perca a capacidade de ser usado com inteligência.
O problema começa quando a ferramenta deixa de apoiar o pensamento e passa a substituir o exercício do pensamento. Pense no GPS. Antes dele, muitas pessoas precisavam consultar o mapa físico, observar ruas, memorizar caminhos, criar mapas mentais e desenvolver senso de direção (estavam usando seu cérebro). Com o GPS, ganhamos eficiência, mas também deixamos de praticar uma habilidade. Aos poucos, vamos confiando tanto na instrução externa que já não sabemos muito bem chegar sozinhos.
Com a IA, o risco pode ser parecido. Quando um profissional usa a ferramenta para organizar dados, levantar hipóteses, apontar riscos e ampliar sua visão sobre um problema, ela funciona como uma parceira de raciocínio. Mas quando ele passa a pedir que a IA pense, decida, escreva, interprete e conclua por ele, algo importante começa a se perder. O cérebro aprende pelo uso. Aquilo que praticamos tende a se fortalecer. Aquilo que deixamos de praticar tende a enfraquecer. Isso vale para memória, atenção, escrita, julgamento, criatividade, argumentação e tomada de decisão.
E aqui está o ponto central para a liderança: pensamento crítico não é uma competência decorativa. É um ativo estratégico para a sobrevivência do seu negócio e equipe de alta performance.
Um líder que não questiona, não compara fontes, não identifica vieses, não percebe incoerências e não sustenta a dúvida corre o risco de virar apenas um aprovador de respostas bem formuladas. E, em um mundo onde a IA pode produzir respostas muito convincentes, mas nem sempre corretas, isso se torna um problema de gestão, reputação e decisão. Esse líder não merecia estar ali, ele quer apenas o emprego e não somar fazendo a diferença.
Sal Khan, fundador da Khan Academy, tem chamado atenção para um ponto importante: quando estudantes usam IA para substituir atividades que exigem leitura, escrita, reflexão e síntese, podem criar uma espécie de dívida cognitiva. Ganham velocidade no curto prazo, mas deixam de desenvolver capacidades que serão necessárias no longo prazo. Esse alerta não vale apenas para estudantes. Vale também para profissionais experientes, executivos e lideranças que, pela pressão da agenda, podem começar a aceitar resumos, análises e recomendações sem investigar a qualidade do raciocínio por trás da resposta.
Quantas vezes uma liderança aceita o primeiro resumo que recebe? Aceita uma decisão passa a ser tomada a partir de uma síntese bem escrita, mas pouco questionada? E um executivo deixa de julgar e avaliar profundamente o contexto porque a resposta parece clara, objetiva e suficientemente elegante?
A IA pode nos ajudar muito, isso é fato. Mas ela também pode nos deixar confortáveis demais na capacidade do uso de nosso cérebro. E esse conforto, quando vira hábito, cobra um preço muito caro.
Nas empresas, isso pode aparecer de várias formas:
Pode surgir na perda de discernimento, quando as pessoas aceitam respostas sem validação.
Pode aparecer na redução da criatividade, quando todos usam os mesmos comandos, as mesmas estruturas e chegam a conclusões muito parecidas – tudo fica muito igual.
Pode enfraquecer a capacidade decisória, quando profissionais deixam de construir raciocínio próprio.
Também pode afetar a conexão humana, porque liderança não depende apenas de dados, mas de contexto, sensibilidade, escuta e leitura emocional. Ainda mais atualmente, onde escutar o cliente e sua equipe se tornou fundamental para a sobrevivência de um negócio.
“Ah, mas o cliente não importa, temos uma marca. Ah, mas se esse funcionário não quiser trabalhar aqui eu troco mesmo.” – Ok, só depois faz as contas do dinheiro que você está perdendo com essas decisões impensadas. Talvez, você esteja usando pouco cognitivamente seu cérebro, seria bom fazer crochê, montar Lego, quebra-cabeça resgatar sua IA interna.
Enfim, sabemos que a IA pode organizar fatos, sugerir caminhos e estruturar alternativas, mas ela não sente o ambiente, não assume responsabilidade moral pela decisão e não compreende, de forma humana, o impacto de uma conversa difícil, de uma demissão, de uma crise de confiança ou de uma escolha que afeta pessoas. Ela pode simular empatia, mas não vive as consequências de uma decisão. Ela pode escrever um texto, mas não sabe o que aquele texto representa para a reputação de quem assina.
Por isso, talvez a grande competência da liderança na era da IA não seja apenas aprender a usar novas ferramentas. Isso será básico. A competência mais valiosa será preservar a autonomia intelectual em um cenário em que pensar parece cada vez mais terceirizável. É só, abrir o LinkedIn, conversar com profissionais no mercado de trabalho, ligar a TV e ver as notícias, andar pelas ruas, ir ao shopping e se sentar em um café ao lado de uma pessoa que liga seu celular e fica ouvindo áudios de conversas ou vídeos sem um fone de ouvido.
Usar IA bem não é delegar tudo. É primeiro rever a sua cultura, saber onde se quer olhando o seu negócio, seu momento e não para o lado (copiando o outro – aqui a autenticidade se perde). É aprender a fazer perguntas melhores, desconfiar da primeira resposta, comparar possibilidades, pedir contrapontos, testar premissas e olhar para o contexto antes de transformar uma sugestão em decisão. Essa é a diferença entre uma liderança que usa tecnologia para ampliar a própria inteligência e uma liderança que, aos poucos, terceiriza o próprio julgamento.
Gosto da ideia de usar a IA como copiloto, não como piloto automático. O copiloto apoia, organiza, alerta e amplia a visão, mas quem continua responsável pela direção é o ser humano. Essa mudança de postura altera completamente a forma de trabalhar. Em vez de pedir que a IA escreva um relatório inteiro, o líder pode pedir que ela organize os principais pontos, mostre riscos, levante hipóteses e ajude a enxergar cenários. Em vez de buscar apenas uma resposta, pode usar a ferramenta para ampliar a qualidade das perguntas. Em vez de aceitar uma conclusão pronta, pode investigar o que ficou de fora, quais premissas precisam ser validadas e que variáveis humanas, políticas, emocionais ou culturais a análise não capturou.

Essa pode ser a virada de chave, a IA deve reduzir tarefas operacionais para que o ser humano tenha mais espaço mental para pensar o que realmente importa. Não para que pense menos. O ganho de produtividade só será sustentável se vier acompanhado de ganho de consciência, responsabilidade e discernimento.
Também precisamos proteger espaços de concentração. Pensamento crítico não nasce em meio a interrupções constantes, notificações, respostas instantâneas e consumo infinito de informação. Ele exige pausa, leitura, escrita, conversa qualificada e tempo para elaborar. Nenhuma liderança sustenta boas decisões vivendo apenas no modo reação.
Você já ouviu falar em neuroplasticidade? Ela nos lembra que o cérebro continua se adaptando. Essa é uma boa notícia. Podemos aprender, reaprender e fortalecer capacidades ao longo da vida, mas isso exige intenção e prática. Exige escolher, todos os dias, não entregar tudo para a máquina. Exige lembrar que eficiência não pode ser confundida com profundidade. Saiba que o workaholic erroneamente foi visto durante anos como alguém de alta performance. Nenhum cérebro que não pausa, consegue ser produtivo e eficaz o tempo todo – ele comete falhas banais, que um cérebro em repouso não cometeria.
Mas saibam, minha preocupação não é com a IA. A minha preocupação é com o uso pobre da IA. Uma liderança que usa IA com consciência pode ganhar profundidade, repertório, velocidade e capacidade analítica. Uma liderança que usa IA sem reflexão pode perder autonomia intelectual, presença e discernimento. E talvez esse seja um dos grandes desafios da nossa época: não apenas ensinar pessoas a usar tecnologia, mas ensinar pessoas a continuar pensando bem em um mundo onde pensar parece cada vez mais delegável.
A tecnologia deve nos servir, mas jamais nos substituir por dentro.
Ah, fui pesquisar mais sobre o cognitive offloading e achei esse vídeo, achei interessante compartilhar com vocês, ele fala sobre o impacto da IA na educação, mas isso não ocorre só no meio acadêmico. Clique aqui
O futuro não será construído por quem apenas usa IA. Será construído por quem souber usar IA sem renunciar à própria consciência, da responsabilidade pelas decisões e daquilo que ainda nos torna profundamente humanos.
Até o próximo artigo!
Quem sou?
Juliana Starosky
Sou psicóloga (CRP 06/208657), fundadora da Starosky Consultoria e especialista em Estratégia de Carreira, Liderança e Posicionamento Executivo. Há mais de 20 anos, atuo como conselheira estratégica para profissionais C-Level, diretores e gerentes que buscam acelerar o crescimento, blindar a reputação corporativa e conduzir transições de carreira complexas.
Fontes e Referências
Risko, E. F., & Gilbert, S. J. Cognitive Offloading. Trends in Cognitive Sciences.
Khan, S. “AI is making students dumber”. YouTube.
Pearson, J. “Cognitive Upsizing: The Skill We All Need as AI Takes Over Our Small Tasks”. LinkedIn.
Mineo, L. “Is AI dulling our minds?”. Harvard Gazette.
North, H. “2026 Employee Wellbeing Trends and Neuroscience-Based Strategies”. Understand Your Brain.




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